Arte urbana em todos os lugares

Uma das coisas que mais amo em Berlim é a quantidade de arte urbana que tem nas ruas. É muito painel bonito, muito grafite sensacional.  Já publiquei aqui várias fotos de obras organizadas/patrocinadas por um coletivo chamado Urban Nation. A sede deles fica numa rua chamada Bulowstraße e agora, depois de anos de trabalho árduo, conseguiram construir o primeiro museu de arte urbana de Berlim.

Deixei a muvuca do final de semana, quando houve a inauguração e preferi ir ontem, quando as coisas já estavam mais calmas. O prédio de esquina, que já mudou de fachada tantas vezes, passou por uma reforma e agora está com cara de galeria de arte.

A entrada do museu é gratuita e, olha, que belíssimo trabalho esse pessoal fez! A arquitetura do interior é clean e valoriza as obras, mas o que mais me chamou atenção foi o capricho da curadoria; só tem maravilhosidades! Eles realmente escolheram a dedo as obras dos 150 artistas que estão lá. Mais admiração e orgulho ainda quando se sabe que tem um casal brasileiro na equipe: a Marina Bortoluzzi e o Marcelo Seewald Pimentel, idealizadores do Instagrafite, a maior comunidade de grafite no Instagram (vale a pena visitar o site também, é cheio de lindezas instigantes).

O mais bacana é que o museu não se limita ao seu espaço interno, mas ele realmente é coerente com a proposta de promover a street art: aos poucos, a Bulowstraße, rua na qual está instalado, vai ficando mais e mais colorida e interessante. Toda vez que passo por lá tem trabalhos novos e obras sensacionais. E eles, como Organização Não Governamental muito bem estruturada, conseguem trazer artistas do mundo inteiro para fazer intervenções em tudo quanto é canto dessa cidade. Se você for no site da Urban Nation, vai ver que tem até um mapa da cidade com o endereço dos principais murais. Não é demais?

De fato, um povo que está fazendo diferença para transformar o mundo num lugar melhor para se viver. Sou fã.

Mas vamos dar um passeio rápido para ver o que tem de bom?

NOTA: o autor da obra que aparece na imagem inicial é o artista português Vhils.

Essa casa já mudou de fachada tantas vezes! Essa é a atual, mas ela já foi mais bonita. De qualquer forma, penso que continuará mudando 🙂
Uma das muitas caras que esse prédio já teve.

 

Essas são duas das minhas favoritas! Os artistas são, respectivamente, Sandra Chevrier (Canadá) e Andreas Englund (Suécia).

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Em que você acredita?

Se alguém me perguntasse qual é a maior invenção da história da humanidade, eu diria que é o método científico.

Deixa esclarecer direito como o negócio funciona: você tem uma ideia para explicar algum fenômeno ou acontecimento. Aí você bola um experimento que corrobore essa sua ideia. Você faz o experimento, recolhe e analisa os resultados e então conclui se esses resultados ajudam ou não a fundamentar sua ideia (que no método científico chamamos de teoria). O próximo passo é submeter o artigo a estudiosos do tema e publicá-lo em algum veículo científico credenciado.

Observe que o experimento precisa ser reproduzível por outros pesquisadores, por isso precisa ser documentado segundo regras específicas. Só assim é possível chegar aos mesmos resultados e fundamentar os argumentos para defender a teoria.

Note que o método científico não prova nada, ele apenas fortalece a confirmação de uma teoria. Se você é dessas pessoas que adora usar a expressão “cientificamente comprovado”, reveja essa prática. O método científico não produz provas, apenas evidências de que aquela teoria procede. A única área da ciência que consegue produzir provas definitivas e absolutas (ou seja, o resultado previsto acontecerá com certeza em 100% dos casos) é a matemática. Todo o resto aponta para a validação de uma teoria, mas não é tecnicamente uma prova.

É perfeito? Não. Ainda tem muitos erros e estudos tendenciosos? Sim. Pode melhorar? Definitivamente sim. Mas, até agora, a meu ver, é o que mais ajuda a gente a separar ciência de crença; estudos e conclusões sérias de achismos; debates fundamentados de debates facebookianos.

Por que estou falando isso? Porque, apesar das evidências, há muitas pessoas que acreditam que a mudança climática nada tem a ver com a ação humana. Vamos então analisar isso do ponto de vista do método científico.

Segundo a cientista americana especializada em atmosfera Katharine Hayhoe, 97.1% dos estudos científicos publicados em revistas especializadas corroboram a teoria de que o ser humano tem alguma responsabilidade sobre as mudanças climáticas que vêm ocorrendo no planeta e que essas mudanças tendem a ser cada vez mais drásticas. E apenas 2.9% dos artigos advoga o contrário, seja defendendo que as mudanças não são tão danosas, seja afirmando que elas aconteceriam independente da presença e atuação do ser humano.

Pois bem, alguns cientistas resolveram então replicar os experimentos apresentados nesses 38 artigos contrários e… supresa! Nenhum conseguiu reproduzir os resultados apresentados. Todos continham algum tipo de erro ou imprecisão que invalidavam as conclusões (o artigo e a análise completa estão nesse link).

Ainda assim, há quem duvide que a ação humana tenha algo a ver com as mudanças climáticas.

Essas pessoas têm todo o direito de acreditar no que quiserem: que vacina não funciona, que a terra é plana, que o homem não foi à Lua, enfim, qualquer coisa.

Isso acontece porque crença, ao contrário do método científico, não exige nada: nem provas, muito menos estudos, experimentos ou mesmo análises. Para uma crença existir, só uma condição se faz necessária: que alguém acredite nela.

Aí, cada um escolhe acreditar no que quiser; eu escolho acreditar no método científico…rsrsr

Festa para os olhos

Coisa mais linda quando uma empresa sabe exatamente o significado do conceito de marketing: entregar valor e estabelecer relacionamentos duradouros. Pois a Olympus é um exemplo claro de quem sabe o que está fazendo.

Com certeza a empresa tem um belíssimo orçamento para o cumprimento dessa missão, ainda mais se considerarmos a ameaça dos telefones celulares como substitutos das câmeras fotográficas tradicionais, principalmente para fotógrafos amadores. A empresa atua em outros segmentos, como biomedicina, mas o carro-chefe ainda são as câmeras.

Pois bem, em vez de investir um caminhão de dinheiro para uma celebridade dizer, sem convencer ninguém, que só usa essa câmera, eles fizeram muito, mas muito melhor: contrataram artistas contemporâneos para criar instalações interativas impactantes, e, principalmente, fotogênicas. A exposição, gratuita, já percorreu várias cidades da Europa e está vindo pela segunda vez a Berlim (não fiquei sabendo da primeira, que foi em 2014). A cada temporada, os artistas e as instalações mudam, mas é sempre para deixar todo mundo de boca aberta.

A maioria das obras é projetada para que a pessoa tire muitos selfies (até eu, que não sou muito chegada, tirei vários, como você vai ver nas fotos). Mas o mais bacana, sensacional e genial, sabe o que é? Você entra e eles logo perguntam se você trouxe sua própria Olympus ou quer experimentar uma. Pode escolher uma câmera profissional ou uma mais simples (escolhi a simples, claro, pois não sei fotografar). O moço me deu as orientações básicas e logo guardei meu telefone, amigo de todas as horas.

É claro que, se eles estão querendo que as pessoas tenham a melhor impressão possível da câmera, não vão oferecer um fusquinha. Os modelos disponíveis eram os lançamentos mais recentes (depois fui olhar; eles me emprestaram uma câmera de € 2 mil) e você recebia o equipamento com a memória limpa e bateria carregada por quanto tempo quisesse ficar lá dentro.

A festa para os olhos era um deslumbre! Pena que tinha muito efeito de luz, difícil para uma leiga como eu fotografar. Mesmo assim, deu para se divertir bastante!

No final, veja se tem como não amar, você tem direito de imprimir três fotos em formato 13×18 cm e ainda leva o chip de memória para casa. Isso sem falar nos eventos paralelos: workshops, palestras e performances, tudo isso durante 20 dias.

Vou continuar tirando fotos com meu telefone (sou muito desajeitada com máquina), mas virei fã incondicional da Olympus, viu?

Para quem está em Berlim, a exposição fica até dia 23 de setembro e o site para se registrar e pegar o ticket online é esse: Olympus Perspective Playground.

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top 10 de agosto: Berlim com uma pitada de Kassel

O mês de agosto foi muito bacana! Além dos dias lindos e verdíssimos (apesar de muita chuva também), tive a oportunidade de passar dois dias visitando a documenta de Kassel, cidade que vai dar o tempero desse mês com uma foto.

Prepare aí seus olhinhos para a comida boa!

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher de cabelos brancos vestindo um longo vermelho esperando para atravessar uma avenida larga. Ela está de costas, comas mãos para trás. A rua está praticamente vazia, exceto por um furgão branco que passa do outro lado. — at Kurfürstendamm (Berlin U-Bahn).
1. Essa dama de vermelho chegou até a inspirar um desenho no meu estúdio (dá uma olhada aqui). #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher de cabelos brancos vestindo um longo vermelho esperando para atravessar uma avenida larga. Ela está de costas, comas mãos para trás. A rua está praticamente vazia, exceto por um furgão branco que passa do outro lado. — at Kurfürstendamm (Berlin U-Bahn).
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma vespa azul estacionada na sombra de uma calçada coberta de árvores. O prédio atrás é grafitado com desenhos bem coloridos retratando um jardim florido. As folhas da árvore desenhada se confundem com as de verdade. A foto ficou parecendo um desenho. — at All Style Tattoo Berlin.
2. Quando a Vespa está estrategicamente parada só para sair bem na foto! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma vespa azul estacionada na sombra de uma calçada coberta de árvores. O prédio atrás é grafitado com desenhos bem coloridos retratando um jardim florido. As folhas da árvore desenhada se confundem com as de verdade. A foto ficou parecendo um desenho. — at All Style Tattoo Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas sentadas em cadeiras dobráveis azuis no parque Weinberg, atrás do museu dos Irmãos Grimm. O parque fica no alto de um morro tem uma vista maravilhosa de toda a cidade. A foto foi tirada ontem, no final da tarde. — at Weinberg Terrasse.
3. Kassel é toda cheio de morros e pequenas montanhas; por isso há vários lugares com vista privilegiada. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas sentadas em cadeiras dobráveis azuis no parque Weinberg, atrás do museu dos Irmãos Grimm. O parque fica no alto de um morro tem uma vista maravilhosa de toda a cidade. A foto foi tirada ontem, no final da tarde. — at Weinberg Terrasse.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um rapaz passando de bicicleta na ciclovia bem em frente a uma sorveteria, que está fechada no momento. A fachada é toda decorada com desenhos e dizeres que remetem ao verão. Há um coqueiro azul desenhado em cada lado da fachada. — at California Pops - Prenzlauer Berg.
4. Gastei um tempão esperando alguém passar na hora certa para fazer o clique. Mas acho que valeu a pena, né? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um rapaz passando de bicicleta na ciclovia bem em frente a uma sorveteria, que está fechada no momento. A fachada é toda decorada com desenhos e dizeres que remetem ao verão. Há um coqueiro azul desenhado em cada lado da fachada. — at California Pops – Prenzlauer Berg.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas bicicletas estacionadas sob uma janela instalada num prédio cujas paredes da fachada estão grafitadas de maneira espetacular. Cores quentes e intensas, parece que o desenho está vivo e fervendo! — at All Style Tattoo Berlin.
5. Imagina a minha cara quando vi esse grafite maravilhoso? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas bicicletas estacionadas sob uma janela instalada num prédio cujas paredes da fachada estão grafitadas de maneira espetacular. Cores quentes e intensas, parece que o desenho está vivo e fervendo! — at All Style Tattoo Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um banco de praça azul marinho visto de costas. Ele está num parque, de frente para um lago. Na frente dele há uma grade de proteção com um desenho delicadíssimo de pássaros em galhos. A sombra da grade é projetada no chão, parecendo um bordado de luz. Adoro essas pequenas delicadezas que fazem o mundo mais bonito... — at Fennpfuhl.
6. Toda vez que vejo uma grade caprichada, fico procurando os bordados de luz. Tão lindos! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um banco de praça azul marinho visto de costas. Ele está num parque, de frente para um lago. Na frente dele há uma grade de proteção com um desenho delicadíssimo de pássaros em galhos. A sombra da grade é projetada no chão, parecendo um bordado de luz. Adoro essas pequenas delicadezas que fazem o mundo mais bonito… — at Fennpfuhl.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a vista de baixo para cima de dois prédios e um poste de iluminação especial (à direita; nunca vi um tão bonito). O poste reflete o edifício curvo e o reto, ambos cheios de janelas. O céu está azul, azul... — at Motel One Berlin-Upper West.
7. Esse é o poste mais brilhante que já vi na vida! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a vista de baixo para cima de dois prédios e um poste de iluminação especial (à direita; nunca vi um tão bonito). O poste reflete o edifício curvo e o reto, ambos cheios de janelas. O céu está azul, azul… — at Motel One Berlin-Upper West.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um belíssimo café; as paredes são de um vermelho intenso e as almofadas das cadeiras na calçada e são pink, amarelo, verde-limão e lilás. Os vasos são cor de cobre. Pela janela pode-se ver dois clientes sentados do lado de dentro: um homem veste camiseta preta e uma mulher está de blusa vermelha. — at Kaffeesatz.
8. Um café todo em tons de vermelho. Ao vivo é muito mais lindo! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um belíssimo café; as paredes são de um vermelho intenso e as almofadas das cadeiras na calçada e são pink, amarelo, verde-limão e lilás. Os vasos são cor de cobre. Pela janela pode-se ver dois clientes sentados do lado de dentro: um homem veste camiseta preta e uma mulher está de blusa vermelha. — at Kaffeesatz.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra as mesas de um café na calçada larga e arborizada. Um ombrelone protege os frequentadores do sol. É a paz materializada em paisagem urbana. — at Café Entweder Oder.
9. Olhando essa imagem, você diria que você está num dos bairros centrais da capital alemã? Delícia, né? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra as mesas de um café na calçada larga e arborizada. Um ombrelone protege os frequentadores do sol. É a paz materializada em paisagem urbana. — at Café Entweder Oder.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma moça sentada num banco lendo, à sombra das árvores, às margens do rio Spree. Ao longe é possível ver a ponte de ferro de Moabit. O dia está perfeito. — at Helgoländer Ufer.
10. Lendo as notícias do Brasil vejo o quão sortuda sou em morar numa cidade onde as mulheres podem simplesmente sentar num banco de praça e ler tranquilamente um livro sem medo de serem assaltadas ou violentadas… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma moça sentada num banco lendo, à sombra das árvores, às margens do rio Spree. Ao longe é possível ver a ponte de ferro de Moabit. O dia está perfeito. — at Helgoländer Ufer.

Não podemos esperar mil anos!

Imagine que aparece uma agência de viagens oferecendo férias muito diferentes: três semanas no futuro mil anos à frente. Quem oferece o recurso é o pessoal do futuro, claro, pois eles querem estudar história e conversar com os “fósseis” de mil anos atrás.

Um sujeito  do nosso tempo vai todo empolgado, chega naquele cenário de filme de ficção científica com pessoas voando em patinetes entre edifícios espelhados. Mas já nos primeiro minutos, vai preso (ou algo equivalente a isso no futuro).

Em uma sala fria e com poucos móveis, um robô chamado Chron conversa com o sr. Saconava, o personagem em questão; um homem perfeitamente comum, desses que a gente vê aos montes pelas ruas. Presente está também uma moça incrivelmente linda aos olhos do tal homem.

O robô então informa ao nervoso turista o que está acontecendo. A moça o está acusando de tê-la bolinado, comportamento inadmissível nessa sociedade.

O homem vai ficando cada vez mais nervoso, até que é colocado numa espécie de aparelho onde ele se acalma e é impelido a falar a verdade. No começo, ele conta que foi atravessar a rua, não viu que a moça vinha de patinete e simplesmente esbarrou nela, causando uma queda corriqueira e sem nenhuma gravidade. Mas, sob influência da máquina, o sujeito admite: achou a garota tão linda que provocou a queda. Na confusão, aproveitou a oportunidade para passar a mão nela.

Conforme ele vai contando, a cena aparece numa espécie de vídeo em câmera lenta, com direito a zoom na mão nada boba. Agora, sim, a versão dele bate com a da moça.

O sr. Saconava não tem mais como negar o assédio, mas continua indignado e cheio de razão. Isso tudo é uma bobagem, não é motivo nenhum para ser preso. Onde já se viu? Ele é um turista, tem que ser bem tratado! Nem aconteceu nada sério! Vocês do futuro não têm mais o que fazer não?

Chron, o robô, se pudesse suspirar, o faria. Ele não pode perder de vista que há mil anos a cultura era muito diferente e as pessoas eram muito primitivas. Resolve a questão enviando o homem para a colônia de férias dos turistas do passado pelas três semanas contratadas.

O lugar foi projetado para ser um museu interativo de história, mas aos poucos foi a solução encontrada para retirar esses indivíduos do convívio civilizado, onde apresentavam riscos à população. O museu, ou melhor, a colônia, tem praias azul turquesa, coquetéis coloridos e bem decorados e as tais “loiras” que o homem tanto queria.

Ao final das férias, quando os amigos perguntam sobre a experiência, ele reclama que os pãezinhos no café da manhã nunca eram frescos.

Apesar da bizarrice da história, dá para reconhecer perfeitamente os personagens e suas reações, né? Inclusive um retrato muito bem acabado de boa parte dos turistas que a gente encontra rodando o mundo.

E se eu disser que esse relato é o resumo do primeiro conto do livro “Die große Reserve: Phantastische Geschichten aus einer utopischen Zeit”, de Wolfgang Kellner, publicado em 1981 na DDR (Deutsche Demokratische Republik, a antiga Alemanha Oriental)?

Vivemos num mundo com pessoas civilizadas sim, mas a maioria esmagadora dos homens, infelizmente, ainda é perfeitamente representada pelo sr. Saconava.

Por sorte vivo num país onde uma mulher pode entrar de biquíni no metrô que nenhum homem vai levantar os olhos (se alguém olhar de verdade, pode apostar que é um turista, provavelmente latino ou russo).  Aqui você consegue passar por uma obra de construção civil sem ouvir nenhuma gracinha ou ter a sensação de ser devorada com os olhos, seja lá o que estiver usando para cobrir (ou descobrir) o corpo. Inclusive, você pode tirar toda a roupa num parque e tomar sol sem ser importunada.

Sim, a vida civilizada e o respeito pelas mulheres não é ficção científica; existe e é perfeitamente possível.

E não, senhores Saconava, definitivamente não estamos dispostas a esperar mil anos por isso.

****

NOTA: É por isso que não consigo deixar de ler livros de papel; achei essa preciosidade € 1 no mercado de pulgas. O livro é lindo, tem capa dura e ilustrações!

As 5 obras que mais gostei na Documenta de Kassel

Nada como ter amigos queridos, cultos e generosos para realizar sonhos em ótima companhia. Há anos queria muito visitar a Documenta de Kassel, a maior exposição de arte contemporânea do mundo que acontece a cada cinco anos a 300 km de Berlim. Na Documenta13 eu não pude ir por diversos motivos, mas escrevi um texto aqui, falando inclusive sobre as origens e objetivos do evento.

Agora tive a oportunidade de passar dois dias em Kassel com o Rainer Bielfeldt e o Tiago Zarpack enchendo os olhos de sons, imagens, cores, provocações e muito verde (é a cidade mais verde da Alemanha). Conseguimos visitar 8 dos principais museus e galerias e muitas instalações externas, pois escolhemos passar as últimas horas conhecendo o Palácio de Wilhelmshöhe e o monumento de Hércules (mas isso é assunto para outro post).

A Documenta14 teve sua abertura em Atenas, na Grécia, pela primeira vez na história. Os 100 dias de exposição em Kassel terminam em 17 de setembro e a curadoria concentrou-se em tratar dos problemas migratórios, das crises econômicas, da violência e da intolerância; por isso a conexão com a capital grega. O resultado ficou realmente impactante.

Arte contemporânea não é uma coisa simples para pessoas leigas como eu; vi muita coisa que me encantou, mas muita coisa também que não entendi e não consegui ver valor. Observei que havia muitas instalações que enfatizavam sons em vez da linguagem visual; tanto em museus e galerias como entre árvores no meio dos parques, era comum ouvir sussurros, gemidos, assobios e sons estranhos vindos de caixas de som escondidas acionadas por sensores de presença. Com certeza, uma experiência muito interessante.

É um mundo de novidades e pontos de vista inusitados para compartilhar; mereceria um tratado, mas não tenho tempo e nem conhecimento suficientes para fazê-lo. Como leiga, vou destacar então as cinco obras que mais me encantaram, seja pelo visual, seja pela ideia ou contexto. Vamos passear, então!

1.Partenon de livros proibidos

Só posso dizer uma coisa sobre a obra da argentina Marta Minujín: g-e-n-i-a-l! Depois que o trabalho está feito, é daquelas coisas que a gente se pergunta como é que ninguém tinha pensado nisso antes. Pois a artista, lembrando a conexão com Atenas, e explorando o tema democracia (Atenas é o berço desse tipo de organização social, representada pelo Partenon), reconstruiu o templo grego em escala real com uma estrutura de metal recoberta de plástico recheado com livros proibidos em algum lugar do planeta (no passado ou no presente). Para a obra monumental, foram recebidas doações do mundo inteiro. Depois de terminada a mostra, os livros serão novamente doados.

O interessante, além do conceito e da grandiosidade, é verificar os títulos: vai do Alquimista, de Paulos Coelho, a Harry Potter, de J.K. Rowling, passando pelos 50 tons de cinza, contos dos irmãos Grimm e até a Bíblia. Dá para ficar horas descobrindo curiosidades. Se a gente pensar em ditaduras como as da Coréia do Norte e até mesmo Cuba, mais perto de nós, que controlam os livros que a população pode ou não ler, dá para ver que não é difícil encontrar títulos proibidos em pleno século XXI. Infelizmente.

Aqui algumas imagens desse cenário inesquecível.

Um homem opera uma filmadora sobre um tripé. Ao fundo, o Partenon de livros.
Com um milhão de visitantes, a Documenta muda o cenário da pacata Kassel (de 200 mil habitantes). Há cinegrafistas e fotógrafos profissionais e amadores por todos os cantos.
Partenon de livros.
As dimensões são impressionantes.

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top 10 de julho

Seguem as 10 fotos minhas mais curtidas no Instagram no mês de julho. É verão, mas ainda tem muita flor nessa cidade!

Vem comigo!

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o reflexo em uma poça d'água da silhueta de uma bicicleta que passa (aparecem apenas as rodas e os pés do ciclista). A foto está em preto e branco para melhorar o contraste. — at Märkisches Ufer.
1. Vida de ciclista depois da chuva. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o reflexo em uma poça d’água da silhueta de uma bicicleta que passa (aparecem apenas as rodas e os pés do ciclista). A foto está em preto e branco para melhorar o contraste. — at Märkisches Ufer.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um restaurante que está sempre decorado com muitas e belíssimas flores. Em primeiro plano, um vaso de lírios cheirosíssimos. Há bicicletas estacionadas na calçada e pessoas caminhando ao lado das mesas compridas de madeira. — at Modern Graphics Kastanienallee.
2. Esses lírios alegram (e perfumam) qualquer passeio! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um restaurante que está sempre decorado com muitas e belíssimas flores. Em primeiro plano, um vaso de lírios cheirosíssimos. Há bicicletas estacionadas na calçada e pessoas caminhando ao lado das mesas compridas de madeira. — at Modern Graphics Kastanienallee.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um casal de costas, sentado na grama, à beira do rio Spree. Ele usa coque e está sem camisa; ela usa uma blusa vermelha. Um cisne (ou "cisna") passa pela frente deles com seus quatro filhotes. — at Treptower Park.
3. E essa família completa de cisnes? Como não amar? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um casal de costas, sentado na grama, à beira do rio Spree. Ele usa coque e está sem camisa; ela usa uma blusa vermelha. Um cisne (ou “cisna”) passa pela frente deles com seus quatro filhotes. — at Treptower Park.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o pátio interno de um prédio com as paredes grafitadas. Uma escultura de um homem sorridente usando óculos de sol aparece de perfil em primeiro plano. Na altura da boca, pode-se ver a silhueta de uma pessoa que passa, criando um jogo visual. — at Café Cinema.
4. Esse lugar é meio mágico, para mim. Um beco misterioso no centro da cidade.#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o pátio interno de um prédio com as paredes grafitadas. Uma escultura de um homem sorridente usando óculos de sol aparece de perfil em primeiro plano. Na altura da boca, pode-se ver a silhueta de uma pessoa que passa, criando um jogo visual. — at Café Cinema.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um por-do-sol espetacular visto de uma margem do rio Spree. Ao fundo, na skyline da cidade, é possível ver a torre de tv. Duas pessoas fazem stand up paddle. — at Molecule Man (sculpture).
5. Tem dias que acabam em forma de show… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um por-do-sol espetacular visto de uma margem do rio Spree. Ao fundo, na skyline da cidade, é possível ver a torre de tv. Duas pessoas fazem stand up paddle. — at Molecule Man (sculpture).
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o pátio interno de um prédio onde tem uma loja de roupas femininas. Debaixo da árvore plantada no centro, há um banco com uma manequim sentada, vestida de vermelho. Há também outros manequins de roupas atrás com vestidos vermelhos em destaque. O contraste entre o verde da árvore e da fachada do prédio com o vermelho das roupas fica muito interessante. — at Spirit Yoga Berlin.
6. E a pose dessa dama de vermelho? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o pátio interno de um prédio onde tem uma loja de roupas femininas. Debaixo da árvore plantada no centro, há um banco com uma manequim sentada, vestida de vermelho. Há também outros manequins de roupas atrás com vestidos vermelhos em destaque. O contraste entre o verde da árvore e da fachada do prédio com o vermelho das roupas fica muito interessante. — at Spirit Yoga Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o casario às margens de um canal do rio Spree refletido numa poça d'água. O dia promete. — at Historischer Hafen Berlin.
7. Essa foto tem um truque: está de ponta cabeça…rs #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o casario às margens de um canal do rio Spree refletido numa poça d’água. O dia promete. — at Historischer Hafen Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a foto mostra uma moça com os cabelos semi-raspados e coloridos nas cores verde e amarelo; a maquiagem, caprichadíssima, é uma máscara azul-clara com sombras azuis, lábios azuis e olhassem vermelho e marinho. Ela tem belos olhos azuis, traz o símbolo do feminino na testa em dourado e está sorrindo. Os brincos, de plástico verde neon, mostra o rosto de um ET. Há piercings no nariz, a roupa também é colorida.
8. Encontrei essa linda na parada do Christopher Street Day. Maravilhosa! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a foto mostra uma moça com os cabelos semi-raspados e coloridos nas cores verde e amarelo; a maquiagem, caprichadíssima, é uma máscara azul-clara com sombras azuis, lábios azuis e olhassem vermelho e marinho. Ela tem belos olhos azuis, traz o símbolo do feminino na testa em dourado e está sorrindo. Os brincos, de plástico verde neon, mostra o rosto de um ET. Há piercings no nariz, a roupa também é colorida.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o porto histórico coberto pela luz dourada do sol que se põe, quase 9 horas da noite. O céu ainda tem algumas nuvens, mas está limpando. — at Historischer Hafen Berlin.
9.Um belíssimo por-do-sol no porto histórico. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o porto histórico coberto pela luz dourada do sol que se põe, quase 9 horas da noite. O céu ainda tem algumas nuvens, mas está limpando. — at Historischer Hafen Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a porta de uma pequena galeria de arte que, em si, já é uma bela obra, cheia de recortes, colagens, mosaicos e cores. — at Galerie Studio St. St.
10. Uma galeria de arte que já é uma obra em si. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a porta de uma pequena galeria de arte que, em si, já é uma bela obra, cheia de recortes, colagens, mosaicos e cores. — at Galerie Studio St. St.

Os estranhos métodos do dr. Irabu

O dr. Irabu é um psiquiatra meio doido; em sua própria turma de medicina, os colegas já o achavam esquisito. Mesmo assim, acabou se formando e herdando o consultório do pai (aliás, uma clinica inteira). Esse simpático senhor gordinho tem métodos bem inusitados para tratar seus pacientes; ele simplesmente passa a viver o dia-a-dia com eles, seja lá o impacto que isso cause em ambas as partes.

Esse excêntrico psiquiatra também tem mania de sair dando injeções de vitaminas independente do problema. O personagem criado por Hideo Okuda, pelo que pesquisei, além do volume “Die seltsamen Methoden des Dr. Irabu” (tradução livre: “Os estranhos métodos do dr. Irabu“), também estrela outros romances e coletâneas de contos.

Nesse livro, cada capítulo relata um caso. O primeiro é de um trapezista que começou, do nada, a errar os saltos; desconfiado dos colegas de grupo, começa a alterar seu comportamento. A esposa, também funcionária do circo, procura o dr. Irabu, que imediatamente começa a fazer aulas de trapézio como se não houvesse amanhã. No final das contas, o problema acaba sendo resolvido de maneira um pouco inesperada..

No capítulo seguinte, um mafioso começa a desenvolver um medo absurdo de formas pontudas, além de começar a odiar seu “trabalho”. O dr. Irabu começa a participar dos encontros dos mafiosos sempre mantendo sua atitude inocente e desarmada. Também acaba funcionando.

No capítulo seguinte, ele ajuda um colega de turma a resolver sua compulsão em tirar a peruca do sogro aconselhando (adivinhem?) que ele realmente faça isso. Outros personagens, como um jogador de beisebol e uma escritora também têm suas vidas transformadas pelo bizarro doutor.

O dr. Irabu é daqueles personagens únicos, estranhos, com algum charme sim, mas talvez não o suficiente para me conquistar. Achei apenas legalzinho…

O jardim de cimento

Ian McEwan é um dos meus autores preferidos, mas vivo com ele uma relação de amor e ódio. Há livros sensacionais, como Solar e Sábado e outros meio chatos, como “Der Zementgarten” (tradução livre: “o jardim de cimento”).

A história é a seguinte: quatro crianças, com idades variando entre 6 e 16 anos, moram numa casa e quase não têm amigos (seus pais são um pouco reclusos), até que um dia o pai morre. Meses depois, a mãe também morre. Por causa do irmão menor, de apenas 6 anos, os pequenos decidem não contar nada para ninguém e enterrar a mãe no porão. Eles acreditavam que, se o mundo viesse a saber que eles não tinham mais nenhum responsável, iriam ter que se separar do irmão menor, que provavelmente iria para um abrigo ou dado à adoção.

Ocorre que as crianças são apenas isso; crianças. O fardo é muito grande para carregar. Eles não têm noção de nada; nem de futuro, nem de responsabilidade, sequer cuidam direito do irmão. A história é contada pelo rapaz do meio, de 13 anos de idade, em plena crise da adolescência. A irmã mais velha arruma um namorado que desconfia que há algo errado (principalmente quando a casa toda começa a cheirar mal por conta de uma rachadura no cimento que encerra o corpo da mãe).

O livro não é ruim, mas talvez porque eu o tenha lido em alemão, perdi as nuances das entrelinhas. Penso que a história prometia mais; confesso que fiquei um pouco decepcionada. Não dá para dizer que é ruim, mas não foi dos melhores livros que li do McEwan.

Vá por sua conta e risco.

 

Meu mundo ilustrado

Resolvi realmente levar a sério a ilustração na minha vida. Berlim tem me provocado muito; a inspiração me persegue por todo os lugares onde ando. Aí criei vergonha e montei um portfólio (é só clicar em ilustrações ali no menu) e uma conta só para compartilhar meus desenhos no Instagram.

Dá para fazer encomendas de retratos, comprar alguns objetos estampados em lojinhas virtuais e mais um monte de coisas, mas, principalmente, alimentar bem os olhos.

Vou adorar sua visita! Vem comigo!