Por favor, não acredite em mim!

Estava aqui pensando: por que tantas pessoas de boa fé frequentemente disseminam notícias falsas, mesmo depois de tantos avisos? Ontem falei isso para a minha mãe e ela respondeu que não confere a notícia, como ensinei, porque acredita na pessoa que enviou.

 

Entendo. Se a minha geração foi criada e educada para acreditar, imagina a dela?

 

Quando era pequena, credulidade era uma virtude, um elogio. Criança obediente, que não discute e não contesta, era o sonho de consumo de todos os pais. As pessoas crentes e ingênuas eram as boas; as desconfiadas eram as más. Se a pessoa não acreditava é porque tinha malícia, maldade; pensava sempre o pior. E essa construção, que contradiz inclusive a evolução da espécie (a luta pela sobrevivência pede desconfiança), não veio de graça. Para os governantes, gente obediente é o paraíso.

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Utopia para realistas

Coisa mais linda quando um livro vem para destruir nossas crenças e desafiar o senso comum. Pois se você concorda, não deixe de ler “Utopia for realists and how we can get there“, do Rutger Bregman.

O autor começa com uma visão bem otimista do mundo; diz que em 99% da história, 99% da humanidade era pobre, faminta, suja, medrosa, estúpida, doente e feia. Mas isso mudou radicalmente nos últimos 200 anos. Em apenas numa fração ridícula de tempo, bilhões de pessoas tornaram-se ricas, bem nutridas, limpas, seguras, espertas, saudáveis e, ocasionalmente, bonitas. Em 1820 cerca de 84% da população do planeta vivia em extrema pobreza. Esse número foi reduzido para 10% nos dias atuais. É claro que ainda é muita gente, mas que mudança! A se continuar nesse ritmo, é possível erradicar totalmente a extrema pobreza em breve.

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A revolução 4.0 e o tesarac: é para se preocupar?

A próxima temporada de palestras no Brasil vou falar quase somente sobre a revolução 4.0. Os clientes corporativos parecem estar muito preocupados com isso; penso que estão cobertos de razão.

Ok, mas de onde veio esse termo? E o que são, afinal, as revoluções 1.0, 2.0 e 3.0? Em que a 4.0 é diferente e por que assusta tanto?

Vamos por partes.

A primeira revolução industrial (1.0) aconteceu no final do século XVIII, quando surgiram, na Inglaterra, as primeiras máquinas a vapor e as locomotivas. O impacto foi enorme, já que, naquela época, a esmagadora maioria da população vivia nas áreas rurais e se mudou para as cidades. Tanto a produção industrial transformou a vida das pessoas (principalmente na área têxtil, onde antes tudo era produzido artesanalmente) como no transporte e distribuição de matérias primas e produtos.

A maneira como a sociedade se organiza até hoje tem muito a ver com essa mudança radical na economia, no conceito de trabalho e na maneira como se utiliza o tempo. No início, as jornadas chegavam a 16 horas diárias e não havia limite mínimo de idade. Aos poucos, com as lutas e reinvindicações, os horários e os vencimentos mínimos foram se ajustando até chegarem ao que são hoje.

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Tokio

Confesso que sou fascinada por histórias que se passam no Japão; talvez por isso goste tanto do Harumi Murakami, mesmo quando ele não está lá muito inspirado.

Então, quando peguei Tokio, da Mo Hayder (parece ser uma famosíssima autora; eu é que não conhecia), não pude resistir.

A história é sobre Grey, uma estudante britânica de vinte e poucos anos que vai a Tokio procurar um professor chinês que está morando na cidade. Ela é especialista em história e está obcecada por encontrar um filme amador rodado durante a invasão japonesa na cidade de Naquim, na China, em 1937. O professor viveu o traumático episódio, mas não quer falar a respeito. Tudo começou porque ela leu um livro sobre essa invasão em sua infância, passada em casa (ela nunca foi à escola quando criança; recebeu educação dos próprios pais em um sítio).

Grey tem vários segredos, uma cicatriz misteriosa e  várias partes de sua vida mal explicadas. Ela passa meses em Tóquio e até se envolve com a Máfia local, na esperança de descobrir mais informações sobre a tal guerra que parece ter forte relação com o seu passado.

A história é muito bem tramada e tem flashbacks do evento que o professor viveu, em 1937, narrado por ele mesmo. Há muita dor, muito horror, muita desumanidade e muita violência, como é comum nas guerras. Sendo que as mulheres são sempre as que sofrem mais…

A trama vai se desenrolando aos poucos; impossível largar o livro antes do final.

Mais que recomendo. Vou procurar outros livros da autora.

top 10 agosto: nada de desgosto

Falam por aí que agosto é o mês do desgosto, mas não procede! Olha quanta comidinha boa para os olhos teve nesse mês!

Comente aí sua preferida!

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um senhor cheio de estilo sentado no banco de madeira da estação de metrô, futucando seu celular. Ele usa camisa branca, calça verde-bandeira, mocassins bicolores e um chapéu de tecido. — at Märkisches Museum (Berlin U-Bahn).
1. Esse tiozinho todo elegante combinando com a estação de metrô fez o maior sucesso. E não é para menos! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um senhor cheio de estilo sentado no banco de madeira da estação de metrô, futucando seu celular. Ele usa camisa branca, calça verde-bandeira, mocassins bicolores e um chapéu de tecido. — at Märkisches Museum (Berlin U-Bahn).

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O palácio de portas abertas

Se tem uma tradição que adoro aqui na Alemanha é o “Tag der Offenen Tür” (Tradução livre: Dia das Portas Abertas), em que prédios públicos abrem suas portas para os cidadãos conhecerem (afinal, são os verdadeiros donos).  Cada instituição escolhe seu dia e faz uma verdadeira festa; tem apresentações, atividades para crianças e, principalmente, muita informação. Adoro quando os teatros, as óperas e os museus abrem suas portas. Os órgãos do governo todos fazem isso também e até a casa do presidente tem seu dia de receber visita de gente comum.

Pois o mais legal é que eles costumam fazer isso em obras também, já que todo mundo é muito curioso. Hoje foi o dia de portas abertas do Humboldt Forum, o mais novo museu de Berlim, que será inaugurado o ano que vem. A obra já está quase pronta (começou em 2013) e esse é o último evento de acesso ao público antes da abertura oficial. É que agora eles vão colocar as obras dentro do museu. Continue reading “O palácio de portas abertas”

Globo Ciência

Em 1993 (lá se vão 25 anos!) eu estava iniciando o mestrado e, ao mesmo tempo, comecei a trabalhar na Gyron Tecnologia, empresa que desenvolvia o Projeto Helix (já falei dele aqui). Nessa época, o programa Globo Ciência fez um episódio mostrando sobre o projeto.

Além da equipe de engenheiros formada pelo Conrado Seibel, o Marcos Regueira e eu, e mais dois técnicos (o Carlos Dutra e o Miguel Arcanjo), o projeto tinha dois engenheiros convidados do CTI de Campinas (o Josué Ramos e o Othon da Rocha), que desenvolveram um modelo matemático que simulava o vôo; a ideia era usá-lo para treinar os futuros pilotos (que, infelizmente, nunca aconteceu).

Pois o Josué conseguiu digitalizar o vídeo (a qualidade está bem ruim, dada a idade avançada da mídia), mas é ótimo para relembrar esse projeto que fez tanta diferença na minha vida profissional e, em útima instância, o direcionamento da minha carreira para o tema inovação.

Só apareço de relance em duas cenas (eu estava trabalhando de verdade, não apenas fazendo figuração…rs). Todo mundo tão novinho… bons tempos!

 

 

 

Top 10: julho e seu verão perfeito

Esse já é o sétimo verão que passo em Berlim, e nunca tinha visto um tão quente e ensolarado. O lado ruim é a seca; dá para ver que as plantas estão sentindo bastante. O lado bom são os dias lindos e quentes, perfeitos nessa cidade tão cheia de parques, árvores, lagos e rios. Vamos dar uma olhada na seleção desse mês?

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a silhueta de bicicletas estacionadas na grade de uma ponte. O céu está azul, azul... — at Jannowitz Bridge.
1. Cidade das bicicletas! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a silhueta de bicicletas estacionadas na grade de uma ponte. O céu está azul, azul… — at Jannowitz Bridge.

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A fábrica de feedbacks

Hoje visitei a Feedback Factory, uma loja que vende produtos inovadores que ainda vão entrar no mercado. Na verdade, encontrei-a por acaso há algumas semanas, mas estava morrendo de pressa. Hoje entrei e descobri coisas bem interessantes.

Olha que ideia mais bacana: a própria loja é uma start-up e serve para as start-ups testarem seus produtos antes de fazer o lançamento oficial no mercado.

Quando o cliente entra na loja, preenche um questionário anônimo com informações sócio-econômico-demográficas que fica associado com um número (é so pegar um cartão na bancada da entrada e preencher o questionário no iPad; se quiser tem a versão em papel também). Ao lado do cartão, tem um carimbo desses com esponja integrada com o mesmo número.

Nas prateleiras, só há produtos que ainda não estão no mercado, como um drink para dormir feito com extrato de plantas e melatonina, por exemplo. Ao lado de cada produto, cartões de cores diferentes onde a pessoa pode pegar um deles, carimbar seu número (para eles associarem com seus dados) e depositar num copinho ao lado. Cada produto tem um repositório para depositar os cartões carimbados e você pode responder pesquisas de opinião de quantos produtos quiser.  Há oito feedbacks disponíveis:

  1. (verde) “eu quero”
  2. (azul) “vou dar de presente”
  3. (preto) “já conheço”
  4. (vermelho) “é muito caro”
  5. (cinza) “me parece familiar”
  6. (roxo) “isso é supérfluo”
  7. (laranja) “não me interessou”
  8. (amarelo) cartão em branco para a pessoa escrever o que quiser.

A maioria dos produtos é comida, bebida ou o que se chama superfoods (alimentos especiais) na maioria veganos, bio ou da região; mas também tem desentupidor de pia, rosas conservadas com um processo diferente e até cartões impressos que não achei nada inovadores.  

Aí procurei uma coisa que eu realmente achasse especial, que não encontrasse em outros lugares e quisesse experimentar; achei. Comprei um pote de grilos temperados com pimenta rosa da WickedCricket. Sempre ouvi dizer que insetos são gostosos e uma fonte importante de proteína (meu pai contava que tinha comido formiga frita no nordeste; sempre fiquei curiosa). Sei que na África é muito comum, mas nunca tinha tido a oportunidade. Minhas impressões: sabe aquele doce de arroz japonês, onde o grão de arroz incha e fica parecendo isopor? Pois o grilo tem essa textura, só que no meu caso era salgado. Não achei ruim, mas prefiro castanhas ou amendoim…rs

A loja também oferece às empresas uma pesquisa de mercado profissional e aprofundada pelos seis meses em que o produto ficará à venda (uma parceria com o Berlin Institute for Innovation). Assim, quando (e se) o produto for para as prateleiras dos supermercados, já haverá dados fundamentados que justifiquem a aquisição por parte do lojista.

Achei uma maneira bem inteligente de fazer uma prototipagem um pouco mais sofisticada antes de partir para a produção em escala. Tomara que dê certo.

A loja é a cara de Berlim; tudo bem rústico e despojado, com muita madeira e muita coisa escrita a mão. As luminárias são feitas de copos plásticos.
Aqui os cartõezinhos para a pessoa escolher o que melhor reflete sua opinião, carimbar seu número e colocar na “urna” ao lado do produto.
Aqui os potinhos dos grilos grelhados (na verdade são tostados, mas gostei do trocadalho…rs). Tinha os sabores Ervas do Algäu (uma região da Alemanha), Flor de Sal e Pimenta Rosa (a que comprei). Ao lado o cartão que escolhi e o carimbo com meu número. A latinha de metal funciona como uma espécie de “urna” para recolher os cartões de pesquisa.
O atendimento é bem personalizado e a pessoa tira todas as suas dúvidas. Se quiser experimentar algo, também pode pedir.
Tem coisas que penso que não tem nada a ver com o lugar; tipo esses cartões. Eles não tinham nada de inovador (e eram bem caros)…

 

Esse desentupidor de ralo que é basicamente uma varinha de madeira torneada me pareceu bem interessante. A start-up é suíça e está testando a ideia no mercado alemão.

top 10 de junho: Berlim e Sofia

Junho rendeu várias fotos interessantes; Berlim está toda florida e tive a oportunidade de visitar Sofia, na Bulgária. Aqui a seleção das mais curtidas nas redes sociais para você escolher sua preferida.

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma rua bem arborizada e sua calçada larga, como a maioria na cidade. No canto esquerdo há uma Vespa estacionada. No canto direito, em primeiro plano, uma floreira transbordando de cores. — in Weißensee.
1. Berlim na primavera é um suspiro a casa esquina! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma rua bem arborizada e sua calçada larga, como a maioria na cidade. No canto esquerdo há uma Vespa estacionada. No canto direito, em primeiro plano, uma floreira transbordando de cores. — in Weißensee.

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